• marcoshelena

O Latim é para todos! (4)

Uma série da autoria do Prof. Giovanni Fighera


Este artigo foi originalmente publicado em simultâneo no quotidiano on-line La Nuova bussola quotidiana (https://lanuovabq.it/it/elogio-della-retorica-la-materia-base-che-nessuno-insegna) e no blog do autor La ragione del cuore (https://www.giovannifighera.it/il-latino-serve-a-tutto-4-che-cosa-e-rimasto-a-scuola-dello-studio-della-retorica/), no dia 22 de abril de 2018. A tradução portuguesa é aqui publicada com a autorização das partes interessadas, a quem agradecemos a generosidade.


Neste novo artigo, o autor continua a refletir sobre a importância da retórica. Não poupa palavras para defender a sua reintrodução nos currículos e condena quem pensa que esta disciplina é inútil.


Elogio da retórica, a disciplina “basilar” que ninguém ensina

Na base da lógica e da retórica tem de estar a arte de pensar e de raciocinar. Mas a escola atual educa verdadeiramente para pensar e para raciocinar?



Cícero, o maior orador romano


Hoje, na escola, a retórica reduz-se frequentemente ao estudo das figuras retóricas, que é uma componente da elocutio, ou então do ornatus, uma mera parte do gigantesco puzzle que constitui a disciplina. Quem é que estuda as técnicas de mnemónica na escola? Não só não se estudam, como parece sempre mais difícil aprender de cor poemas e versos. Talvez o aluno se inscreva mais tarde num dos tantos cursos que prometem oferecer-lhe uma memória prodigiosa…Quem quer que ensine ou desenvolva atividades em que é central a relação com um auditório sabe perfeitamente como é eficaz a exposição dos argumentos sem consultar apontamentos ou livros. Quem fala deve possuir uma memória que lhe permita expor sem necessitar do texto escrito ou das cábulas.

Na atualidade, entre as disciplinas de qualquer escola, conta-se o Português, compreendido muitas vezes como o estudo dos autores. Nos primeiros anos, o aluno estuda a teoria da comunicação, textos literários (de romances a poemas), aprende um punhado de figuras retóricas para encontrar num poema... Isto acontece nos melhores casos! O jovem poderá, então, perguntar-se qual é a finalidade de localizar as figuras retóricas num texto poético. Pode parecer-lhe um jogo mais ou menos divertido ou também lhe pode parecer uma total perda de tempo, sem sentido e nenhuma utilidade.

Mas, pergunto eu, se o jovem fosse colocado diante da evidência de que o uso da retórica e a faculdade de persuasão são fundamentais no quotidiano, são utilizadas de um modo consciente ou inconsciente, se o aluno se desse conta do fascínio que é saber falar e escrever bem, não passaria talvez a conceber o estudo da retórica na escola como insubstituível?

A retórica não coincide com a gramática ou com o estudo dos autores na disciplina de Português, também não pode ser estudada de maneira reduzida e parcial nesta disciplina. A retórica deveria ser introduzida como disciplina por si só.

Porém, entendamo-nos. Neste ponto, estamos de acordo com o maior retor latino de todos os tempos, Cícero. A retórica, embora se estude isoladamente, não está desvinculada dos outros saberes. O bom retor deve ter uma cultura sólida, a mais ampla possível, deve amar a sabedoria e a verdade. De outra maneira, poderia servir-se das suas capacidades de persuasão para maus fins. Cícero estava plenamente convencido da veracidade da expressão atribuída a Catão-o-Censor: «rem tene, verba sequentur» (ou seja, «possui argumentos, as palavras segui-los-ão»). Não é possível separar, como defende alguma prática pedagógica contemporânea, as competências da cultura. O saber fazer adquire-se através da aprendizagem de um saber. Mais uma vez, a contemporaneidade rima com especialização e separação.

Houve, porém, um tempo em que não se procurava a fragmentação do saber, mas um tópico como as figuras retóricas (o ornatus) estava associado à arte mais abrangente de saber bem falar e bem escrever, isto é saber colorir a expressão. A cultura antiga sabia associar o pormenor com o seu significado e a sua função. Hoje a especialização e a setorialização dos estudos ameaçam fazer perder de vista este quadro mais completo.

Para verificar se o que afirmei até aqui tem fundamento, podemos fazer uma pequena sondagem. Perguntemos a alguns jovens do secundário o que é a retórica e o que é a lógica. Perguntemos-lhes onde e em que disciplinas da escola a lógica e a retórica são aplicadas. Por fim, perguntemos-lhes qual é a diferença entre «persuadir» e «convencer». Talvez o resultado da sondagem nos diga que a maioria dos alunos de uma secundária não sabe exatamente o que são a lógica e a retórica.

Mas, então, como é que um jovem pode escrever e falar bem se não conhece as duas disciplinas que estão na base de um discurso coerente, lógico e bem escrito?

A lógica tem como finalidade «convencer». «Convencer» significa demonstrar uma tese partindo de dados, hipóteses de partida consideradas verdadeiras, utilizando deduções que sejam sequenciais e estreitamente ligadas entre si (o verbo latino «vincio» significa «vincular», «ligar»). Se os dados de partida são verdadeiros, então o discurso desenvolvido com lógica terá o selo da veracidade.

A retórica, por seu lado, tem como fim a persuasão, que não está necessariamente ligada à verdade e à virtude de um conteúdo. Também podemos persuadir uma pessoa a perpetrar crimes horríveis.

Na base da lógica e da retórica tem de estar a arte de pensar e de raciocinar. Mas será que a escola educa verdadeiramente para pensar e para raciocinar?

Considero que devo dizer isto, não como provocação, mas porque estou profundamente convencido do que digo: proponho ao próximo Ministro da Educação que reforme a escola, regressando à verdadeira formação e à cultura. Regressemos à escola séria, que forma, que dá cultura, que educa! Em lugar de desprezar o Português, o Latim, a História na ideia de que os alunos precisam dessas horas para mais Matemática e mais Física (é uma ingenuidade pensar assim, as razões para o insucesso nestas disciplinas são muito diferentes e mais complexas), dever-se-ia introduzir novamente a disciplina de retórica em todas as secundárias e também na universidade.

Não é uma disciplina nova, mas uma das mais antigas, que foi eliminada do plano de estudos e não compreendo porquê.

Todos os professores (sem distinção de disciplina), em todos os níveis de ensino, deveriam possuir competências retóricas e não apenas as específicas inerentes à sua disciplina. Serão por caso secundárias no ensino a capacidade comunicativa e a clareza expositiva?

A retórica não pode ser substituída pelo simples estudo dos autores em Português, nem, muito menos, pelo estudo rápido e pouco profundo dos géneros literários, que frequentemente destroça as obras literárias e delas se serve para fazer adquirir competências, mas frequentemente cria nos jovens um alheamento em relação à literatura e à arte.

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